sexta-feira, 13 de junho de 2014

Como começa.



Por Joyce Mandarino: 

 Como quase todos os brasileiros, saí mais cedo do trabalho. E no trânsito, parado, como se fosse hora de rush, uma cena me atraiu. Um menino, de aproximadamente três ou quatro anos, vestido com uma blusa da seleção e brincando de soprar a corneta loucamente enquanto uma moça que aparentava ser sua mãe conversava com uma outra. Isso me fez lembrar como essa paixão louca por seleção brasileira começa e de como aconteceu comigo.

Nasci em 88. Na copa de 90 já estava por aqui, mas por motivos óbvios não me recordo de nada dessa época. Em 94, apesar de ainda ter cinco anos, eu me lembro. Não me recordo de tudo com detalhes, mas lembro-me principalmente da final. Muitos familiares e amigos na minha casa, pois todos se reuniram para assistir a final do mundial no telão que meu pai tinha acabado de comprar, uma TV de 29 polegadas daquelas enormes em formato de caixa. Isso mesmo, era a última novidade em eletroeletrônicos. E após muito desespero durante o jogo fomos parar finalmente nos pênaltis. Com a minha idade eu não tinha a mínima noção de regulamento, campeonatos e muito menos o que levava a decidir quem era o melhor do mundo na penalidade máxima. Mas a apreensão de todos a minha volta me deixou tensa. Minha mãe nervosa não quis se juntar a torcida no quintal, foi pro seu quarto que tinha aquela TV de 14 polegadas miúda no canto do quarto e levou com ela todas as crianças presentes. Além de mim, meu irmão Leonardo que tinha oito anos, meu primo Gustavo com sete e João Marcos, o caçula de três anos. Fomos lá. E a pedido dela nos ajoelhamos e rezamos por aquela taça, pois criança tem o coração puro, quem sabe não seriamos atendidos por alguém lá em cima? Eu prontamente obedeci e João Marcos, o caçula, não entendia muito bem o porquê teria de ficar de joelhos ao redor da cama, mas também obedeceu. Crianças sabem quando tem que obedecer de verdade. Mamãe, empolgada como nunca, acendeu uma vela e tinha em sua outra mão uma faca. Quando a seleção canarinho se preparava para bater o pênalti a vela surgia à frente da TV e a faca se fazia presente nas cobranças da seleção italiana. Pode parecer loucura e hoje considero muito cômico, daquelas historias que você conta a todo mundo gargalhando de rir. E foi. Mas vamos combinar, mamãe e todas aquelas pessoas reunidas no meu quintal não viam a nossa seleção ser campeã há exatos 24 anos, é natural não ser muito racional numa final dessas. E entre velas e facas eu assisti a cobrança de pênalti mais vista nesse país. Roberto Baggio se aproximar da bola, pra mim era só mais um cara com cabelo estranho já que a minha única paixão de 94 naquela seleção era Pagliuca, por ser o jogador mais bonito do álbum de figurinhas do meu irmão (em 98 mudei completamente de opinião, mas isso não vem ao caso). E aquela faca de algum jeito fez efeito, a bola subiu como deveria ser... Dando o tetra ao Brasil. Minha mãe gritava e chorava de tanta alegria. Corri pro quintal e uma euforia tão grande dominava aquele simples ambiente, e sinceramente eu não entendia. E quando olhei pro meu pai, um homem que não torcia pra nenhum time chorando de tanta alegria eu instintivamente comecei a chorar também. Nunca tinha visto meu pai chorar por nada antes. Foi inesperado. E assim que tudo começou, assistindo os adultos próximos a mim sentindo uma alegria indescritível por termos conquistado a taça. E é assim que tudo começa. Como deve estar acontecendo com aquele garotinho que brincava com a corneta sem ter muita noção do que o maior campeonato do mundo significa. Você vê seus pais vidrados e acaba entrando nessa vibração. E não adianta tentar entender, porque não tem explicação. Ninguém nunca vai conseguir explicar como o futebol e a tão esperada Copa do Mundo mexe com a gente. Hoje sou uma grande admiradora do futebol, frequento estádios e assisto jogos aleatórios quando estou de bobeira em casa. Mas ainda não sei dizer o que é esse sentimento. Todos se unem apesar de problemas, insatisfação e tudo mais. Amigo, é a copa do mundo! Eu fico tremula, sinto borboletas no estomago e o coração acelera. Eu amo esse clima, essa festa, essa alegria. Sair pra trabalhar de manhã cedo e ver pessoas animadas, vestidas de amarelo, com acessórios engraçados, me fazem sentir como uma criança entrando num parque de diversões daqueles que você sonha todas as noites. E estar acontecendo aqui, ali, acolá... Nossa, é inexplicável. Eu espero estar viva pra ver outra copa do mundo no Brasil, mas com certeza não terei mais o pique e disposição que minha idade de jovem/adulta me concede. Por isso digam o que quiserem, julguem se lhes agrada, mas eu vou curtir, gritar, vibrar, chorar e aproveitar cada segundo de estar vivendo no país que está sediando o evento que mais me emociona. 

 Brasil, dê o seu máximo e conquiste essa taça, assim eu terei mais empolgação ao contar essa nova história que está sendo desenhada para os meu netos.

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